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Amazonas terá duas estações atmosféricas para monitoração de mudanças climáticas

 
 
  Jornal da Ciência e-mail, 21/01/2008  
 
   
 
  Manaus recebeu na semana passada cerca de 30 toneladas de equipamentos de última geração, os quais serão utilizados na construção de duas estações de monitoramento atmosférico da floresta amazônica

O objetivo é saber como a região interfere nas mudanças climáticas globais e quais os processos biológicos, químicos e físicos que são responsáveis pela emissão de núcleos de condensação de nuvens que regulam o ciclo hidrológico na Amazônia. A meta é que todos os equipamentos estejam instalados até o dia 28 de janeiro para o começo das atividades.

Segundo o pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Artaxo, questões como essas ainda não foram estudadas profundamente e são necessárias para se inserir a Amazônia no processo de monitoramento das mudanças climáticas globais, “o que ainda não aconteceu”, disse. Ele explicou que as questões científicas são estratégicas para o país e para elaboração de políticas públicas do governo.

“Serão estudados processos que são fundamentais para os serviços ambientais que a floresta pode realizar para o meio ambiente. Vários desses processos ainda são desconhecidos. Além disso, os trabalhos resultarão em treinamentos para pesquisadores e estudantes da Amazônia, os quais operarão esses equipamentos a médio e longo prazo”, enfatizou.

A primeira base de monitoramento está sendo instalada na Estação Experimental de Silvicultura Tropical, localizada no km 44 da BR-174, e a segunda, na ZF-2, sítio Experimental do Programa LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), situado no km 50 da BR-174, adentrando mais 34 km de estrada de barro, ambos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

As estações funcionarão, inicialmente, por um período de dois anos. Mas a idéia é que o monitoramento seja feito por vários anos, ou seja, por mais cinco ou dez anos. Para isso, serão submetidos projetos ao MCT.

Os equipamentos irão fazer medidas precisas das propriedades atmosféricas de gases e partículas da Amazônia Central. Segundo Artaxo, as medições são fundamentais porque a maior parte do vapor d’água do globo é produzida em regiões tropicais, como a Amazônia, e influencia nos ciclos hidrológicos globais.

Entre os levantamentos que serão feitos, Artaxo destacou a estrutura do perfil vertical da atmosfera por meio de laser de altíssima potência, “o que não era realizado”, afirmou. Os pesquisadores também vão verificar a propriedade das nuvens, o monitoramento remoto por meio de satélites, as medidas dentro da copa das árvores e a concentração de partículas de aerossóis.

“As concentrações de aerossóis na atmosfera serão medidas, em tempo real, por meio de fotômetros solares. Os aerossóis são emitidos por queimadas e estão presentes na fumaça dos veículos automotores. Eles inibem a formação de nuvens e são visíveis em todo o Continente e dispersos para todo o planeta”, explicou o cientista.

Floresta x atmosfera - O inter-relacionamento entre a floresta e a composição atmosférica na região, de acordo com Artaxo, ainda é muito desconhecido. Mesmo com as pesquisas feitas por meio de satélites é preciso estar in loco.

O pesquisador diz que o Programa LBA tem contribuído muito para o entendimento desses processos, mas é preciso formar uma rede de monitoramento ambiental de longa duração. “Precisamos entender as sazonalidades dos fluxos e processos que regulam os ciclos hidrológicos na Amazônia”, afirmou.

Na chuva - Segundo Artaxo, a chuva tem prejudicado um pouco o andamento dos trabalhos, mas nada que comprometa o resultado final. “Fazer pesquisa na Amazônia não é a mesma coisa que trabalhar em uma bancada de um laboratório em SP”, destacou, acrescentando que como esse ano é de El Nina, aumenta a quantidade de chuvas e altera a composição atmosférica.

Apesar da dificuldade logística para instalar equipamentos de monitoramento atmosférico, principalmente devido as fortes chuvas, o pesquisador disse que a idéia era vir mesmo nesse período.

Ele explicou que é um período em que as queimadas cessam. Dessa forma, não há como os resultados serem alterados por ações antrópicas, pois já foram experimentos na região de Balbina, localizada no município de Presidente Figueiredo, no interior do Amazonas, em 2002, na época das queimadas. “A meta é estudar as propriedades naturais das emissões da floresta, o que ainda não foi realizado”, ressaltou.

Os resultados serão apresentados na Conferência Internacional do LBA, que será realizada no período de 24 a 29 de julho deste ano.

A pesquisa vai envolver aproximadamente 120 pesquisadores de diversas universidades e institutos de pesquisa do Brasil e do mundo, entre elas a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), a Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), a Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), a Universidade Federal do Pará (UFPA), além do Inpa e de parcerias estrangeiras como: Universidade de Lund (Suécia); Universidade de Harvard, Instituto Max Planck (Alemanha), Universidade do Colorado (EUA).

Pelo lado brasileiro, os trabalhos estão sendo viabilizados por meio do projeto “Mudanças de Uso da Terra na Amazônia e Implicações Climáticas e na Ciclagem de Carbono”, financiado pelo CNPq, sendo composto por vários subprojetos. Pelo estrangeiro, é viabilizado por meio dos projetos AMAZE e EUCAARI (siglas, em inglês), que consistem em estudos de aerossóis e gases traços detalhados e de longo prazo.

Influência dos aerossóis - Nesta quinta-feira, Paulo Artaxo proferiu a palestra “Importância dos aerossóis na química da atmosfera e na bioquímica da Amazônia", na sala de seminários da biblioteca do Inpa. Ele disse que a ocupação desordenada da Amazônia tem aumentado o número de aerossóis na atmosfera. E, quando em grande quantidade na atmosfera, os aerossóis bloqueiam a radiação solar por completo interrompendo vários processos naturais.

 

 
 
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