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Inovação e desenvolvimento, artigo de Antônio Márcio Buainain

 
 
  Fonte: Estado de S. Paulo, 07/12/2004  
 
  Antônio Márcio Buainain é professor-assistente do Instituto de Economia da Unicamp  
 
  O tema da inovação é cercado de controvérsias, algumas fruto da falta de informações e outras, do entendimento equivocado sobre a natureza do processo de inovação.
Nessa perspectiva, o agronegócio é retratado como setor retrógrado, ignorando-se que sua competitividade se assenta hoje muito mais na tecnologia e capacidade de gestão que nos recursos naturais propriamente ditos.
O economista João Furtado, da Politécnica (USP), acaba de publicar o estudo Padrões de Inovação na Indústria Brasileira (http://www.inovacao.unicamp.br), que ajuda a compreender a natureza do processo de inovação no Brasil.
Para Furtado, a inovação vai bem e vai mal; em certo sentido, o copo da inovação está até mais vazio que cheio. "Inexistem, de fato, inovações significativas, de alcance mundial."
Mas, paradoxalmente, para encher o copo "falta menos do que parece. A inovação já alcançou um patamar bastante promissor na economia brasileira" e está inserida na estratégia competitiva das empresas, que inovam de acordo com suas possibilidades e necessidades.
Analisando alguns dos principais setores, com base numa pesquisa direta junto a mais de 500 empresas privadas, o estudo evidencia que "o campo da inovação - mesmo que ela não se expresse num grande salto - ganhou importância."
Na agroindústria, isso é visível na busca de qualidade e diversificação de produtos e processos, no lançamento de novas marcas, selos, etc. Na automobilística, as empresas vêm apostando cada vez mais em inovações em produtos como base da competição; em outros segmentos, como celulose e aço, a ênfase recai na eficiência operacional e em processos, com efeitos sobre toda a cadeia.
O fato é que a inovação "penetra no sistema industrial e vai influenciando crescentemente as estratégias de expansão das empresas e de competição nos mercados."
Para Furtado, o importante não é tanto a intensidade do movimento, mas sim sua amplitude. Um esforço inovador radical que não desencadeie respostas dos concorrentes por estar fora do alcance tem impacto menor que inovações pequenas, mas que podem ser contestadas e multiplicadas pelos demais.
E é precisamente esse processo, o da inovação incremental, pequena, mas sumamente importante para a competitividade e sobrevivência das empresas, que está bastante enraizado no tecido industrial brasileiro.
Ele não se revela em estruturas pesadas de pesquisa e desenvolvimento, em pesquisas avançadas, mas no desenvolvimento de uma sólida capacitação técnica e em aprendizado continuado, que vêm permitindo às empresas inovar na "medida das suas possibilidades" e sobreviver em mercados cada vez mais agressivos.
Em geral, confunde-se inovação com adoção de tecnologia de ponta, o que leva ao diagnóstico equivocado de que as empresas brasileiras não inovam. É possível adotar estratégias inovadoras sem estar necessariamente na fronteira tecnológica.
No setor farmacêutico, por exemplo, é impossível concorrer com as grandes em busca da última molécula, mas é viável reaproveitar criativamente moléculas já conhecidas e explorar os conhecimentos tradicionais em novos medicamentos.
Esse é o caminho seguido com sucesso por muitas empresas e que deveria ser mais explorado e estimulado pelas políticas de estímulo à inovação.
Aos poucos a inovação vai ganhando espaço na agenda das políticas públicas. A Lei de Inovação, proposta em 2001 na 1.ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, foi assinada pelo presidente Lula.
Apesar da tradição de fazer leis que nem sequer chegam a ser regulamentadas, a Lei de Inovação muda o marco institucional e pode, de fato, facilitar a disseminação do processo de inovação entre as empresas.
Mais além dos entraves burocráticos que a lei certamente ajudará a superar, o estudo de Furtado chama a atenção para limitantes do processo de inovação, entre os quais a falta de isonomia competitiva.
Por que uma empresa deveria apostar na inovação, se pode conseguir o mesmo resultado migrando para outro Estado, subcontratando em condições favoráveis, encontrando brechas tributárias e até investindo em contatos?, pergunta.
Toda vantagem absoluta é uma trava ao processo de inovação e, na economia brasileira, o acesso aos recursos financeiros, "concentrado de forma desmesurada em um grupo restrito de empresas e grupos empresariais", funciona como um "poderoso fator inibidor da inovação."
Por isso a conclusão de que o sucesso de uma política de inovação e de desenvolvimento tecnológico depende de ambientes competitivos mais saudáveis, com mais isonomia competitiva, menos guerras fiscais e outras heterodoxias que inibem a concorrência via inovação.

 

 
 
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