São Carlos, Quinta-Feira, 29 de Outubro de 2020

 

 

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A inovação na pauta do BNDES

 
 
  Fonte: Jornal da Ciência E-mail, 04/05/2007  
 
  Editorial do jornal " O Estado de S. Paulo"  
 
  No discurso de posse na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, mais tarde, numa entrevista à imprensa, o economista Luciano Coutinho fez afirmações que merecem ser repisadas um sem-número de vezes não apenas pelo seu mérito intrínseco, mas por ser quem é - ou foi - o seu autor.
Nelas, de fato, não há resquício das antigas apologias de políticas industriais não apenas anacrônicas, mas literalmente reacionárias, dadas as suas calamitosas conseqüências para o país. O caso de manual, naturalmente, foi o da reserva de mercado na área de informática.
Como previam à época os críticos que se recusavam a raciocinar em bloco - motivo por que eram tachados de entreguistas pelo estridente coro do nacional-desenvolvimentismo -, o programa só beneficiou a indústria do contrabando de computadores e equipamentos do gênero.
E isso numa quadra histórica de mudança de paradigma na economia mundial, um processo que abarcou desde o chão da fábrica a estratégias empresariais - não raro com o respaldo de instituições públicas do setor - voltadas para a integração dos sistemas produtivos e de comércio exterior. Hoje, o que sustenta o professor Coutinho no comando do segundo maior banco de investimentos do mundo?
“Ela (a política industrial do BNDES) não é uma política intensiva em protecionismo, em fechamento de mercado, em subsídio fiscal. Isso faz parte do passado, não faz parte da política industrial moderna.”
Decisivas para essa auspiciosa virada de página foram, decerto, a experiência adquirida pelo economista como consultor empresarial e os estudos a que o seu grupo na Unicamp se dedicou, com reconhecido êxito, sobre o fenômeno das cadeias produtivas.
Em cada uma dessas frentes ele aprendeu a colocar no topo das prioridades para o desenvolvimento um problema em relação ao qual, contrastando notoriamente com outras economias emergentes, o setor produtivo nacional continua a correr atrás do prejuízo: a inovação.
“Não há dúvida de que, nesse campo, o Brasil marcou passo, enquanto as economias asiáticas em desenvolvimento vêm avançando celeremente na manufatura e na exportação de bens e serviços associados às tecnologias de informação e de comunicações”, reconhece, sem apelar, como há quem faça, a hipotéticas circunstâncias atenuantes.
Além disso, ele não circunscreve o tema à sua dimensão tecnológica. A indústria brasileira, conclama, precisa inovar mais e mais depressa também em matéria de produtos, processos, qualidade de gestão e “governança” - que é como ele parece denominar a adoção de iniciativas empreendedoras e a sua continuidade. O desafio, define, “é como entrar de forma eficiente nesse jogo”.
A palavra desafio, no caso, não é mero lugar-comum. Pois são insuficientes, embora imprescindíveis, políticas públicas de “apoio sistêmico” à inovação no plano empresarial, “como fazem os países desenvolvidos e os em desenvolvimento que estão logrando dominar a terceira onda de progresso industrial e tecnológico”.
É preciso ainda, muitas vezes, remar contra a maré. Uma década e meia da abertura econômica - que obrigou numerosos setores a se modernizar a toque de caixa diante da competição da qual haviam sido poupados pelos cartórios do protecionismo da era Vargas ampliados sob Kubitschek e Geisel - não bastou para erradicar de todo essa herança verdadeiramente maldita. Ela sobrevive na esfera mais propícia a todo tipo de obsolescências: o plano das mentalidades.
“Falta na indústria brasileira, tanto nas empresas nacionais como nas multinacionais aqui instaladas, a cultura da inovação”, aponta o ministro de Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, um dos quadros mais respeitados do governo federal. Numa entrevista publicada ontem pelo jornal Valor, que aliás se casa com o noticiário do dia sobre a posse de Coutinho, ele chamou a atenção para um duro fato da vida: “Mudança de cultura você não faz rapidamente.”
A boa notícia é que “o setor empresarial está despertando para o fato de que a forma de competir é fazendo com que a inovação seja incorporada ao processo produtivo”, diz Rezende. Resta saber se essa incorporação será tão “inovadora” a ponto de zerar a conta do passado.

 

 
 
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